Arquivo da categoria: Pré-diagnóstico

Vale a pena deixar para depois?

Já dizia o provérbio… “não deixe para amanhã o que você pode fazer hoje”. Mas, todos nós temos tantas coisas a fazer em um só dia que as 24 horas não bastam. Então procrastinar torna-se um hábito na vida de milhares de pessoas ao redor do mundo, incluindo a minha. Este hábito de adiar uma ação, que poderia ser feita em determinado momento, pode ser considerado um bem ou um mal.

A procrastinação se torna perigosa, inclusive à saúde, quando gera stress para se completar uma tarefa adiada para a última hora ou quando gera a angústia de não se tê-la feito… ainda. Mas, a procrastinação também traz um certo prazer e alívio. Um alívio falso e momentâneo de não ter que lidar com uma tarefa mais complexa e de maior esforço em um determinado momento. Então se distrair com algo mais fácil e divertido de se fazer em comparação à tarefa em questão, torna a procrastinação mais gostosa e atraente.

Quem nunca procrastinou em frente ao Facebook? A rede social mais famosa do mundo diariamente distrai a maioria de nós de coisas mais importantes a fazer. As centenas de atualizações diárias com fotos e status de dezenas de amigos nos deixam loucos e curiosos para clicar e continuar clicando. Quando damos conta do tempo, este já se foi… daí a madrugada nos espera para terminarmos nossos afazeres.

Bom, não sou psicóloga nem terapeuta para dar conselhos sobre procrastinação. Não sei, mas na minha cabeça, eu comparo a procrastinação à obesidade. Nesta acumulamos gordura desnecessária ao organismo, e naquela acumulamos atividades contrárias à produtividade. E ambas, para serem combatidas/evitadas exigem muita disciplina, determinação e exercício diário!

Na apresentação deste blog, disse francamente que tenho dificuldade em planejar e organizar melhor o meu tempo. E acredito que, como muita gente nesse mundo, ainda sofra de procrastinação. Só não quero que esta se torne patológica, nunca mais! Sei que diariamente terei que fazer o esforço de planejar melhor minhas atividades, focar na tarefa mais importante do dia, dizer não às distrações, etc… até que tudo isso se torne um hábito natural e prazeiroso.

No post de apresentação dos primeiros capítulos deste blog disse que falaria de 4 fatores que afetaram a minha saúde: 1. o stress e o estado emocional, 2. a alimentação, 3. a atividade física, 4. a espiritualidade (digo, meu relacionamento com o Deus da Bíblia). Hoje, acredito realmente que a procrastinação, embebida em todos esses fatores, comprometeu a minha saúde.

Agora chega de falar do que já passou e me atrapalhou! Daqui para a frente vocês vão me acompanhar no passo-a-passo do meu novo “regime”, na fase de recuperação e reorganização da vida. Em algumas áreas tenho sido mais bem sucedida do que em outras. Mas, o importante é olharmos para o Alvo e seguirmos sempre em frente!

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Por onde andava a minha fé…

Eu achei que não estava tão longe assim. Mas, logo que Deus novamente afinou o meu relacionamento com Ele, vi que antes eu era como um barquinho à deriva que sorrateiramente ia se afastando da praia.

Naquele tumulto todo de stress, emoções fora do lugar, confrontameto da fé na universidade, não soube ao certo o que levou meu coração a ficar tão duvidoso quanto a certos aspectos da minha fé cristã. De alguma forma, eu parecia estar longe de Deus. Aquele mesmo Deus que se revelou a mim através da pessoa de Jesus Cristo quando tinha apenas 6 anos de idade. Aquele mesmo Deus que se mostrou presente em tantos momentos decisivos da minha história. Aquele mesmo Deus que moveu barreiras intransponíveis para manifestar Sua glória em minha vida. Aquele mesmo Deus que alcançou a vida do meu pai e que o tornou um servo d’Ele. Aquele mesmo Deus que se revelou a tantos estudantes nas universidades do Brasil e do mundo, enquanto fazia (e ainda faço) parte da Aliança Bíblica Universitária. Aquele mesmo Deus que se tornou conhecido à dezenas de estudantes internacionais no Canadá durante nossos estudos bíblicos. Aquele mesmo Deus que vem agindo na vida de milhares ao redor do mundo para dar sentido à vida e resgatar nossa verdadeira identidade de Filhos de Deus. Era deste Deus, do qual passei a minha vida inteira tão perto, que estava me afastando naquele momento.

Hoje me pergunto como isso veio a acontecer. Bom, aprendi com o prórpio Jesus que é lá no íntimo do coração que o pecado cria suas raízes. Ele disse à multidão, no Sermão do Monte, que os atos externos, como por exemplo o adultério e o assassinato, têm sua origem nos sentimentos e desejos maliciosos do homem lá dentro de seu coração. E é exatamente lá que a pessoa de Jesus quer entrar e mudar tudo.

Confesso que meses antes de adoecer, externamente continuava a mesma pessoa, com as mesmas “atividades religiosas”. Era lá dentro de mim que alguns fundamentos da minha fé estavam estranhamente começando a ruir, mas não totalmente. Alguns pilares ainda estavam bem sólidos, mas outros, principalmente os relacionados à fé no sobrenatural, já apresentavam rachaduras.

Hoje eu entendo perfeitamente que não podemos acreditar pela metade. Não podemos acreditar somente em determinadas partes das Escrituras Sagradas. Não dá pra acreditar que Deus pode mudar somente certos aspectos da vida humana. Não dá pra entregar somente parte do nosso coração a Ele. Ele conhece tudo e quer novamente ser o Senhor de tudo o que há em nós, como era lá no princípio de todas as coisas.

Ainda não conhecemos tudo, vemos parcialmente, como já dizia o apóstolo Paulo em I Coríntios 13:12. Mas, um dia veremos face a face Aquele que é o autor e consumador de nossa fé! Você crê?

A fisioterapeuta que não se movimentava direito

Uma das lições mais importantes que tenho aprendido no meu processo de entendimento do que aconteceu com a minha saúde é que a vida é dinâmica e precisa ser vivida com movimento e fluidez. A vida tem ritmo e nós também. E quando paramos de nos movimentar, enquanto tudo se movimenta ao nosso redor, ficamos em descompasso com a vida. Acho que o que estou tentando filosofar aqui é que o sedentarismo (e hoje também acho que além do físico, existe o sedentarismo mental e espiritual) favorece o aparecimento de doenças em nosso organismo. E que também movimentar-se em um ritmo irregular e esporádico pode ser um engano para a nossa saúde. Não quero trazer aqui estudos sobre o exercício e seus benefícios à saúde, pois disto a internet e os programas de TV estão cheios.  E mais para frente falarei sobre algumas evidências científicas da relação entre a atividade física e o câncer. Hoje, apenas trarei à luz o que tenho observado em pessoas saudáveis e em mim mesma, essa pessoa que se adoeceu, mas que vem se recuperando com algum aprendizado.

Figura retirada do ClipArt, Microsoft Office Word 2007

O que eu percebo, e muitos de vocês já devem ter notado, é que as pessoas que são equilibradamente mais ativas, tanto fisicamente quanto mentalmente, são as que menos sofrem de doenças e vivem com mais qualidade de vida. Eu fiz um estudo de caso da minha mãe, a pessoa mais ativa e saudável e que está mais perto de mim agora. Ela toma seu cafezinho com açúcar de manhã e de tarde, nunca fez grandes modificações na sua dieta, mas come bem e de forma equilibrada, e sem exageros. Não pára de se movimentar um minuto, e em atividades do lar mesmo… varrendo, passando pano no chão, tirando a poeira, lavando roupa, cozinhando… todo santo dia, menos no dia santo. E ainda quando sobra um tempinho, faz caminhadas com as amigas ou vai para a hidroginástica. Nunca vi minha mãe parada dentro de casa, remoendo coisas ruins em seu coração.

Agora, a filha dela já não foi pelo mesmo caminho. Eu sempre tive um tipo meio atlético, mas nunca fiz jus ao meu porte. Sempre pratiquei atividades físicas irregulares como o surf, a nadadinha na praia e a caminhada de vez em quando, o voleibol semanal… todas eram atividades que não davam para ser praticadas com regularidade e no ritmo para um condicionamento físico ideal. E com isto, a partir de um certo momento na minha vida, fui maqueando o meu sedentarismo com esses irregulares exercícios. Acho que é por isso que a barriguinha sempre esteve lá… daqui em diante não entrarei em detalhes (rs).

Enfim, não quero mais viver uma vida arritmada e sem movimento. Ainda há tempo de fazer mudanças consideráveis. De me disciplinar para entrar no ritmo de um bom condicionamento físico e mental. Pois enquanto há vida, há movimento!

O prato nosso de cada dia

Acabei de almoçar e resolvi então escrever o post sobre alimentação. Estava aqui comendo e comparando a minha atual alimentação com a antiga. Pra você ter uma idéia, hoje almocei salada verde com alface, agrião, rúcula, salsinha, cebolinha e coentro acompanhada de beterraba e cenoura raladinhas, somadas ao arroz integral cozido com inhame e caule de couve, além do feijão ao alho… no lugar da carne vermelha, comi ovo frito e sardinha ao óleo de azeite. Tudo delicioso ao tempero da minha tia Esperança! Terminei de comer contando quanta coisa boa tinha acabado de ingerir: 7 tipos de verduras, 3 tipos de legumes, 2 tipos de grãos, além do ovo e peixe. As duas colherinhas de sorvete de creme com baixo teor de açúcar e um pedacinho de bolo de côco fecharam com chave de ouro!

Eu nunca fui de comer mal, mas também nunca comi tanta variedade de legumes e frutas como tenho comido agora. Na verdade, meses antes de fazer a radical descoberta, a minha alimentação tinha desgringolado bastante, talvez como reflexo de tudo que estava acontecendo ao meu redor. Estava consumindo muita carne vermelha lá no Canadá, e achava que esta, associada ao arroz, feijão enlatado e salada de tomate e alface, já estava de bom tamanho. Variava muito pouco este “prato nosso de cada dia”, e não queria trocar o bife por nada. Acho que ingeria carne vermelha 3 a 4 x mais do que seria recomendado por semana (200 g ou 2 bifinhos). E na ausência do pratinho brasileiro, comia hamburguer, batata frita com refrigerante ou suco de fruta adocicado (enlatado ou de caixinha). Sobremesa? Chocolate, claro. Às vezes levava uma frutinha na bolsa . Mas, diante da pressão e do stress do meu doutorado, o que rolava mesmo era chocolate em frente ao computador do meu laboratório. Sem falar no cafezinho né? Todos os dias pela manhã e durante a tarde tomava um cafezinho com os colegas de laboratório. E no Canadá, cafezinho é apelido né minha gente! A gente tomava mesmo era no mínimo 300 ml de café do Starbucks e Second Cups da vida (com açúcar no meu caso, que cresci tomando café adoçado da minha mãe).

Alguns pesquisadores sugerem que o açúcar deva ser tratado como o tabaco por estar associado a doenças degenerativas e do coração, ao derrame cerebral, ao diabetes, e até a certos tipos de cânceres.  As bebidas adocicadas, como os refrigerantes, são apontadas como os principais veículos desse alto consumo de açúcar pela sociedade moderna.

O açúcar e a farinha branca parecem mesmo ser os principais vilões! Eles aumentam rapidamente a taxa de glicose no sangue, a qual imediatamente provoca a secreção de insulina e a liberação de fatores de crescimento (como o insulin-like growth factor), que por sua vez estimula o crescimento das células. O açucar também é considerado um pró-inflamatório, e hoje se sabe que a inflamação é um fator contribuinte para o crescimento de tumores. 

A carne vermelha também já vem sendo combatida como uma vilã do câncer e de algumas doenças crônicas, principalmente as processadas como linguiças, hamburguers, presuntos e salames. E eu já reduzi bastante o consumo de red meat na minha dieta! Tenho aprendido a apreciar o sabor dos peixes, do ovo e da carne branca… Como uma boa brasileira e fã de churrasco, não foi fácil, mas consegui!

Fiquemos de olhos bem abertos com nossa dieta! Eu tive que obrigatoriamente abrir o meu. E hoje já não como coisas saudáveis por obrigação. Hoje eu sinto prazer em um cafezinho sem o açúcar pela manhã (na verdade, tem mais sabor), no pão e arroz integrais, nos sucos naturais só com o açúcar das frutinhas e no chocolate com no mínimo 70% de cacau. Carne vermelha? Só dois bifes por semana!

Mudar hábitos de vida não é fácil pra ninguém. Eu ainda estou no processo… e nos posts sobre a minha recuperação, darei mais detalhes de como tem sido a deliciosa aventura de mudar a alimentação, do café da manhã ao lanchinho da noite antes de dormir… Aguardem! E bon appétit!

E o que falar das emoções?

Estávamos todas ali, na enfermaria oncológica do CAISM-UNICAMP esperando pela cirurgia e confirmação do nosso diagnóstico. Foi interessante como nos entrosamos rápido. Parecíamos ter sede de compartilhar, desabafar, chorar, se indignar… tínhamos mesmo algo em comum naquele momento tão difícil, algo mais do que o simples fato de estarmos ali.

Eu e minha colega de quarto éramos as mais novas pacientes do pedaço (novas de idade mesmo). E por curiosidade para saber por que moças tão novinhas estavam ali, outras mulheres acabaram se juntando a nós e o aconchego daquele quarto cheio de corações ansiosos para conversar favoreceu uma informal terapia de grupo. Aquela situação ainda era muito nova e constrangedora para mim, mas iniciei a conversa perguntando:  meninas, como vocês estavam antes de descobrir o câncer? Como era o estado de espírito de vocês?

Daí, as palavras começaram a pipocar… “mágoa, muita mágoa do meu ex-marido”, “não consigo esquecer o que meu pai fez comigo”, “eu sou muito de guardar as coisas sabe? Raramente falo o que penso”, “estava sufocada pelas demandas do meu trabalho”, “eu sempre penso primeiro nas outras pessoas pra depois pensar em mim”… e por aí foi… Então uma das senhoras presentes exclamou, “percebo que aqui então não tem ninguém no lugar errado!” E realmente, para muitas de nós ali, a notícia do temido diagnóstico não parecia mesmo uma grande surpresa.

Desde aquele dia, venho conversando com várias pacientes nos corredores de hospitais onde ando visitando. E os relatos de emoções carregadas de rancor, decepção, mágoa, frustração e tristeza estão presentes na maioria de nossas conversas. Esses sentimentos estão relacionados à personalidade tipo-C, também chamada de personalidade “cancerígena”. Mas, tomo o cuidado aqui de não estereotipar quem já teve ou tem o câncer e também de não me sentir culpada por possuir determinados sentimentos que puderam favorecer o crescimento do tumor que havia em mim. Essas caracterizações da personalidade, a meu ver, servem para alertar-nos das emoções e sentimentos que estão em descompasso com a nossa saúde. E estes sim, não podem ser cultivados em nosso coração!

Não podemos fazer do nosso coração uma cômoda de gavetas entulhadas de sentimentos ruins. O interessante é que, como cristã, já sabia dos sábios conselhos das Escrituras Sagradas para administrar melhor minha ansiedade, preocupação e solicitude pela vida. Mas, de alguma forma, meses antes do diagnóstico, as sábias palavras do meu Criador e Pai tinham ficado distantes…

Hoje, essas mesmas palavras retornam com muito mais sabor e cheias de signficado para mim, ajudando-me a abrir as gavetas entulhadas e a limpar o lugar que sempre pertenceu ao Rei dos Reis! Hoje tenho em minha memória o que pode me dar esperança!

O stress pré-diagnóstico

Hoje eu não estou mais estressada, graças a Deus. Tenho encarado o meu tratamento com tranquilidade, persistência e confiança em Deus. Mas, quando olho para trás, me
lembro exatamente do estado de estresse em que estava nos meses que antecederam o diagnóstico. Os meus desafios acadêmicos e pessoais eram como uma muralha diante de mim. De alguma forma, havia perdido o controle sobre o estresse que me acometia.

O estresse que afeta os pacientes com câncer tem dois lados. É descrito dentro de um mecanismo em alça de retroalimentação. Como é isso? O estresse psicológco desencadeia uma produção em excesso de noradrenalina e cortisol (hormônios do estresse). E estes, por sua vez, desequilibram a atividade das células imunológicas, inibindo o combate às células cancerosas e aumentando o processo inflamatório, recentemente descoberto como um mecanismo-chave no crescimento de tumores. Este desencadear das células tumorais aumentam ainda mais a ativação cerebral para liberação dos hormônios do estresse, tornando este quase incontrolável.

Quando perguntei a outras pacientes como era o estado emocional/psicológico delas antes de terem descoberto o câncer, todas (mais de 10 com certeza) relataram que estavam extremanente estressadas como nunca estiveram antes na vida. Um tipo de estresse onde você se sente impotente para resolver o problema. Para muitas de nós então, a notícia de se ter um câncer não foi uma grande surpresa. Parece que alguma coisa lá dentro de nós avisava que esse estresse descontrolado não ia dar em boa coisa.

Enquanto fazia o meu mestrado em neuropsicologia, aprendi, com base nos experimentos que aconteciam até mesmo em nosso programa de pós-graduação da UFES, que um certo nível de estresse e ansiedade (considerado ótimo) é fundamental para o desenvolvimento de funções como a memória e o aprendizado, e que ausência do estresse não era tão benéfico para a saúde como pensávamos. Parece que um mecamismo parecido está envolvido no desenvolvimento de tumores.

Um estudo experimental mostrou que os ratinhos estressados por choques elétricos, e que tinham a possibilidade de controlar o estresse, rejeitaram melhor os tumores agressivos (63%) em comparação aos ratinhos impotentes diante do estresse (23%) e até mesmo comparado aos que não tinham estresse algum (54%). Este estudo indica que é o sentimento de impotência frente ao estresse, gerado pela incapacidade de
administrar e resolver os problemas, é que pode facilitar o aparecimento de doenças em nosso organismo (neste caso, o câncer).

Hoje vejo que o mecanismo de retroalimentação (explicado anteriormente) pode ter exarcerbado a minha resposta ao estresse meses antes do diagnóstico. E que a desorganização da minha agenda pessoal impediu que eu o administrasse melhor. Mas, agora que estou livre do tumor e também mais consciente sobre os processos que podem desencadear o seu desenvolvimento, cabe a mim buscar uma maneira melhor de lidar com os “choques elétricos” da vida!

* figuras 1 e 2: retiradas do livro Anticâncer – prevenir e vencer usando nossas defesas naturais (páginas 80 e 170, respectivamente)

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