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E o que falar das emoções?

Estávamos todas ali, na enfermaria oncológica do CAISM-UNICAMP esperando pela cirurgia e confirmação do nosso diagnóstico. Foi interessante como nos entrosamos rápido. Parecíamos ter sede de compartilhar, desabafar, chorar, se indignar… tínhamos mesmo algo em comum naquele momento tão difícil, algo mais do que o simples fato de estarmos ali.

Eu e minha colega de quarto éramos as mais novas pacientes do pedaço (novas de idade mesmo). E por curiosidade para saber por que moças tão novinhas estavam ali, outras mulheres acabaram se juntando a nós e o aconchego daquele quarto cheio de corações ansiosos para conversar favoreceu uma informal terapia de grupo. Aquela situação ainda era muito nova e constrangedora para mim, mas iniciei a conversa perguntando:  meninas, como vocês estavam antes de descobrir o câncer? Como era o estado de espírito de vocês?

Daí, as palavras começaram a pipocar… “mágoa, muita mágoa do meu ex-marido”, “não consigo esquecer o que meu pai fez comigo”, “eu sou muito de guardar as coisas sabe? Raramente falo o que penso”, “estava sufocada pelas demandas do meu trabalho”, “eu sempre penso primeiro nas outras pessoas pra depois pensar em mim”… e por aí foi… Então uma das senhoras presentes exclamou, “percebo que aqui então não tem ninguém no lugar errado!” E realmente, para muitas de nós ali, a notícia do temido diagnóstico não parecia mesmo uma grande surpresa.

Desde aquele dia, venho conversando com várias pacientes nos corredores de hospitais onde ando visitando. E os relatos de emoções carregadas de rancor, decepção, mágoa, frustração e tristeza estão presentes na maioria de nossas conversas. Esses sentimentos estão relacionados à personalidade tipo-C, também chamada de personalidade “cancerígena”. Mas, tomo o cuidado aqui de não estereotipar quem já teve ou tem o câncer e também de não me sentir culpada por possuir determinados sentimentos que puderam favorecer o crescimento do tumor que havia em mim. Essas caracterizações da personalidade, a meu ver, servem para alertar-nos das emoções e sentimentos que estão em descompasso com a nossa saúde. E estes sim, não podem ser cultivados em nosso coração!

Não podemos fazer do nosso coração uma cômoda de gavetas entulhadas de sentimentos ruins. O interessante é que, como cristã, já sabia dos sábios conselhos das Escrituras Sagradas para administrar melhor minha ansiedade, preocupação e solicitude pela vida. Mas, de alguma forma, meses antes do diagnóstico, as sábias palavras do meu Criador e Pai tinham ficado distantes…

Hoje, essas mesmas palavras retornam com muito mais sabor e cheias de signficado para mim, ajudando-me a abrir as gavetas entulhadas e a limpar o lugar que sempre pertenceu ao Rei dos Reis! Hoje tenho em minha memória o que pode me dar esperança!

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